Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

JCV-1946

JCV-1946

"REDS": a minha crítica, em 1982, ao filme de Warren Beatty.

 

José Carlos Valente (coord.), “REDS”, in

Cinearma – por um cinema patriótico, científico e de massas !

Lisboa: Cine-Clube Universitário de Lisboa, Ano III – N.º 7 / 8,

Maio / Julho 1982; pp. 20-24 e 40.

 

 

Para irmos direitos ao assunto podemos começar por assinalar que “Reds” custou no mínimo, trinta e três milhões de dólares. Posto isto, convém reter desde já um esclarecimento de Warren Beatty: “Reds não é um filme sobre a revolução russa, é antes um filme sobre a história de um casal que vivia na época em que o acontecimento mais marcante era a revolução russa… [1].

Nesse caso – permitimo-nos comentar – mais valia uma reposição do “Dr. Jivago”, escusava a Gulf Oil de ter financiado um dos filmes mais caros da história do cinema. Mas – é evidente – os protagonistas de “Reds” não são uns jivagos quaisquer; fazem-se passar por John Reed e Luise Bryant, dois militantes comunistas americanos cuja vida foi um exemplo de dedicação à Revolução Mundial Proletária, norteada pelos ideais do internacionalismo mais consequente.

A forma como o projecto é realizado corresponde, portanto, a determinados objectivos, cujo efeito foi já muito bem sintetizado por uma simpática repórter francesa [2]: No futuro será impossível dissociar a personagem de John Reed da imagem que dele dá Warren Beatty, volúvel, irresistível, louco pela política, louco sobretudo pela perturbante Diane Keaton, cuja incarnação de Louise Bryant, a companheira de Reed, mostra que era possível, mesmo no princípio do século, ser à uma, feminista exigente e grande apaixonada”.

Esta rica síntese do efeito que “Reds” já produziu nas cabecinhas de certo público dos cinco continentes, vem reforçar a nossa ideia de que nem todos os casais se prestam a figurantes da Revolução, quando já toda a gente sabe que na realidade, o seu papel foi bem activo e, por vezes, determinante. É mais que evidente, o que Warren Beatty faz de John Reed é atribuir-lhe determinada actuação política e determinado comportamento moral na vida privada, uma versão da “vida deles” tanto quanto possível susceptível de influenciar as nossas, isto é, a todos quantos – mais ou menos correctamente – procuramos ainda contribuir para a transformação revolucionária da sociedade actual.

Para falarmos disso, então, começaremos por sintetizar em duas palavras o que é a moral e a ética dos comunistas: “A nossa moral está inteiramente subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado. A nossa ética tem por ponto de partida os interesses da luta de classe do proletariado” [Lénine] [3].

Não se pense, no entanto, que a orientação de Warren Beatty deriva da inocência de um intelectual burguês genuíno que – como seria natural – não está convencido da justeza ou da aplicação dos conceitos marxistas. No fim de contas temos em “Reds”, não apenas as mais grosseiras malversações históricas dos acontecimentos de que o filme sugeria ser o retrato, como sobretudo assistimos ao desenvolvimento de um guião intrinsecamente reacionário, porque pretende elaborar imagens e conceitos de “moral comunista” e de “vida privada dos revolucionários”.

O fio condutor das atitudes – das “familiares” às políticas - de John Reed, a personalidade que o filme lhe impinge, a hipotética relacionação que lhe é atribuída para com as outras personagens; assinalável pela negativa, o “desmitificador” quadro da sua vida “pessoal”, “afectiva” e “conjugal”.

Apesar daquelas cenas (do esplender dum engate em cima da relva, até à guerra das almofadas, passando pelo ganir do cachorro ciumento) dir-se-ia – pretende Warren Beatty – que nada impediu que aquele John Reed se fosse desempenhando positivamente das suas tarefas no curso da luta revolucionária na América ou na Rússia. Hipótese meramente irracional e provocatória, a que o filme só dá forma à custa de outros atentados à verdade, desenvolvidos em paralelo. Ultrapassadas as tricas domésticas, sempre por meio da mais piegas das conciliações, John Reed ter-se-ia imposto como companheiro de luta dos proletários russos, por exemplo, por estes serem uma cambada de mentecaptos. Veja-se a cena da assembleia de operários, perto do fim da 1ª parte do filme; será que algum espectador, que tenha minimamente participado na vida política e sindical dos últimos anos do nosso país (nem sequer é forçoso ter estado nas greves da Timex, da Cambournac ou dos mineiros da Panasqueira), se reconhece ao de longe naquelas cenas ?

John Reed mantinha frescos os seus dotes sexuais e bem límpida aquela nostalgia de voltar para casa e ter muitos meninos; Zinoviev entretanto, sacrificava o convívio com o seu filho e… sempre a encher a pança; daí que aquela cambada de burocratas não entendesse as preocupações que John Reed ia manifestando. Entretanto, após a tomada do Poder, onde estava o Partido, os operários e o Povo, para além daquelas regateirices entre Reed e Zinoviev ?

No fim de contas e, segundo Warren Beatty, esta coisa de “revoluções” são sempre um equívoco em que homens e mulheres – sempre dos pobrezinhos, claro – são “levados” por meia dúzia de líderes demagogos. Para complicar as coisas, ainda haveria entre estes líderes, uma metade de “burocratas” que andam a “comer” a outra metade de bons rapazes, entre estes se incluindo o John Reed em questão.

Repudiamos, portanto, este “casal” de Reds e todos os equívocos ideológicos, provocações políticas e mistificações históricas de que se pretende fazê-lo portador. Já conhecíamos o “Bonnie & Clyde” e o “Dr. Jivago”. Era melhor que Warren Beatty se tivesse deixado ficar a mijar esplendorosamente em cima da relva…

Uma última palavra para os aspectos técnicos e para os “testemunhos”.

Na sequência dos nossos comentários constatamos que “Reds” recebeu os testemunhos que convinham ao enredo previamente engendrado e aos objectivos últimos da fita. Para certos papalvos da fotografia, o efeito dos velhinhos a discorrer em fundo negro e iluminados pela direita, foi qualquer coisa de fantástico; até impedia que o ambiente que décadas depois os envolve, pudesse influenciar a fria avaliação dos seus depoimentos. É claro que na maior parte dos casos, aquela galeria de personagens pouco tinha tido a ver com a Revolução e com os ideais a quem John Reed dedicou toda a sua vida. Fosse qual fosse o cenário, é mais que evidente que os velhinhos responderam ao que lhes foi perguntado, coisa que o filme não mostra, mas a maioria das respostas deixa adivinhar: Então ! E como era a vida do casal ? .

Até os aspectos técnicos são pura e simplesmente incríveis. Nem os milhões postos à sua disposição conseguiram tornar Warren Beatty um realizador capaz. Da montagem à reconstituição histórica, dos movimentos de câmara a certos aspectos do som, Beatty não conseguiu resolver esses problemas, afundando-se, também aí, no pior estilo de Hollywood – que, diga-se em abono da verdade, costuma saber dar melhor uso (ao menos, formal) ao dinheiro das multinacionais que controlam o cinema.

É fácil compreender que para certos cow-boys do Capitólio, uma rosada fita pseudo-revolucionária se confunde com um capote dos mais vermelhos e provocantes. O que não se entendia é que o grande capital americano (Gulf Oil) fosse investir chorudos milhões nesta super-produção (uma das mais caras de sempre) sem que daí lhe adviesse a certeza da despesa ser compensadora. Veremos porquê !

A nossa análise do “REDS” de Warren Beatty não deixará de ter em conta o que disseram as outras “críticas”, abordaremos a questão da “vida conjugal” de um dirigente comunista – questão que o guião do filme torna central – comentaremos os testemunhos que acompanham a projecção, e teremos, ainda, uma palavra para os aspectos técnicos. Mas, antes de mais, vamos recapitular algumas sequências que pretendem ser biográficas de John Reed e confrontá-las com dados históricos que são, aliás, do domínio público, para concluirmos que estamos perante uma mistificação política, cujos objectivos não são difíceis de adivinhar.

 

U.S.A. HOJE: QUEM TEM MEDO DE PANCHO VILA ?

 

As primeiras cenas que se reportam à participação de Reed na revolução mexicana, resumem-se a uma corrida atrás duma carroça e à corajosa “boca” lançada num club da burguesia liberal: o que estava em causa no México eram os lucros. Todo o filme vai depois mostrar o grande significado que – na óptica de Warren Beatty – teriam tido na vida de John Reed as corridas de carroça (ou de “táxi”) e as “bocas” improvisadas mas sempre “de esquerda” e com efeitos imediatos nas plateias.

Na realidade, porém, e a começar pela revolução mexicana de 1914, o papel de John Reed foi muito mais importante do que “Reds” pretende impingir. Os textos deste revolucionário americano acerca do México não ficaram atrás dos da obra que o autor dedicou à revolução soviética, pese embora no impacto público de uns e outros, o facto de num caso a Revolução ter triunfado e noutro ter sido derrotada pelas condições que lhe eram próprias.

Apesar de tudo, o México continua ali bem perto dos Estados Unidos e sabendo-se que a roda da História nunca se detém, compreende-se os receios que levaram os produtores deste “Reds” a reduzir a imagem de John Reed face à revolução mexicana a uma corrida atrás da carroça seguida da “boca” no club de Portland…

 

U.S.A. 1914-1918:

A GUERRA, O CAPITAL E O TRABALHO

 

Durante os anos da guerra ganhou mais força a exploração da classe operária americana. Os Estados Unidos que antes do conflito eram devedores da França e da Inglaterra, viriam a tornar seus tributários os mais ricos países da Europa. A participação americana na guerra – com uma participação militar que apenas se iniciou no Verão de 1918 – traduziu-se em perdas humanas muitos reduzidas em comparação com os outros beligerantes (50 mil mortos e 205 mil feridos). No entanto, e como fornecedora de matérias primas e armamentos para os países da Entente, o conjunto da indústria americana atingiu lucros líquidos que durante o período de 1914 a 1919, se elevaram a mais de 33 biliões de dólares. O volume de produção industrial cresceu consideravelmente. A produção de aço, por exemplo, aumentou de 1,5 e a produção de automóveis 4 vezes. A guerra contribuiu para a concentração ulterior da produção e do capital nas mãos de monopolistas como Morgan, Rockefeller, Mellon e outros, apoiados em múltiplos instrumentos de repressão, das técnicas de produtividade de Taylor até às bastonadas da Polícia, passando pelos variados bandos da máfia patronal.

O crescimento da produção militar foi acompanhado pela redução dos artigos de primeira necessidade, de consumo geral, cujos preços aumentaram consideravelmente. Esse agravamento das condições de vida dos trabalhadores acarretou a agudização das contradições de classe entre o proletariado e a burguesia.

 

O MOVIMENTO OPERÁRIO AMERICANO E A

SOLIDARIEDADE PARA COM A REVOLUÇÃO SOVIÉTICA

 

A Revolução Socialista de Outubro exerceu grande influência sobre a classe operária norte-americana. O proletariado mais avançado da América do Norte saudou a Revolução Bolchevique e manifestou uma franca admiração pelas massas revolucionárias russas. Nas cidades do litoral ocidental dos Estados Unidos surgiram comités revolucionários de operários e marinheiros, que dirigiam as greves, e os operários denominavam esses comités de “sovietes”.

Quando o governo do presidente Wilson, junto com outros governos das potências capitalistas, organizou a intervenção armada contra a República dos Sovietes, os operários desencadearam um movimento de massa em defesa da Rússia Soviética. Os portuários norte-americanos negavam-se a carregar armas para os exércitos intervencionistas e para os ‘guardas brancos’ [4].

Os participantes dos comités de solidariedade exigiam o abandono da Rússia pelas tropas norte-americanas, o levantamento do bloqueio e o reconhecimento do governo soviético. Centenas de voluntários manifestavam o desejo de alistar-se nas fileiras do Exército Vermelho.

O “Reds” de Warren Beatty, praticamente nada mostra deste movimento de solidariedade dos operários americanos para com a primeira Revolução Proletária triunfante no século XX. John Reed teria sido não mais que um corajoso mas solitário agitador, mais virado, aliás, contra a intervenção dos Estados Unidos na guerra do que activista empenhado nesta torrente de solidariedade internacionalista que vimos de referir.

É verdade que o movimento contra a intervenção dos Estados Unidos na guerra tinha já tomado forma alguns anos antes. O filme faz numerosas alusões a esse facto, mas com a maior das superficialidades e a mais profunda das deturpações: o presidente Wilson é, nesses momentos, o “mau da fita”, John Reed, como já dissemos – e assim será ao longo de todo o filme – é o “herói solitário” e, finalmente, para além da recusa da guerra, a classe operária americana nunca teria tido consciência da necessidade da guerra revolucionária… Isto é absolutamente falso ! Warren Beatty esconde deliberadamente exemplos por demais elucidativos da época a que se reporta o filme[5].

   

AS MIJADAS DE BEATTY

 

Situemo-nos ainda na época considerada, para confrontarmos os factos históricos com as deturpações do filme.

John Reed passou vários dias na cadeia, em Paterson (New Jersey), por ter sido detido ao fazer a reportagem duma greve da IWW [6] nos têxteis [da seda]. Segundo o testemunho de John Lawson, “isto constituiu mais um passo na educação radical de Reed”. O mesmo testemunho refere que, ainda um ano antes, Reed fora “um dos que insistiram em que The Masses fosse iconoclasta, independentemente de qualquer credo ou causa”. Mas, na Primavera de 1913, “foi tão grande a sua emoção pelo contacto com os operários presos, tão grande a impressão causada pela sua coragem, resistência e uma certa forma de sabedoria, que Reed se transformou num militante apaixonado” [7].

Que dizer, então, da única sequência do filme em que John Reed partilha a prisão com os operários, apenas oportunidade para um simpático vagabundo aparecer a comentar que “este até mija vermelho !” ? Warren Beatty mija esta laracha e continua a fabricar a biografia dum “herói solitário”, à medida dos interesses da Gulf Oil. Segue-se a conversa com o médico dos rins, aquela cândida preocupação de poder ter filhos, etc.

O adulterado retrato do movimento operário americano na época da Revolução de Outubro restringe-se, portanto, a algumas assembleias sindicais e partidárias. Na realidade, porém, o fim da guerra, a desmobilização do exército e a redução da produção bélica, acarretaram o desemprego em massa, o movimento grevista ganhou cada vez mais intensidade e adquiriu carácter ofensivo [8].

O filme nada mostra das grandes batalhas que foram as greves mobilizadoras de centenas de milhares de operários americanos. A nível de “assembleias”, afloram-se algumas questões de organização sindical bem como certas repercussões do ascenso revolucionário da época sobre a estrutura e linha política dos partidos operários [9].

Mas, no essencial, Warren Beatty nem sequer está interessado em respeitar a verdade da História e o filme estabelece a maior confusão acerca das ideias do seu “herói” quando se trata da questão dos sindicatos ou da questão do partido. Esta confusão é mais que evidente quando se apresentam discussões de John Reed em Moscovo por ocasião do II Congresso da Internacional Comunista [10].

Recordemos agora alguns exemplos de imagens que “Reds” faz passar como da Revolução de Outubro:

Numa assembleia de operários, uma bagunça dos demónios, todos falam ao mesmo tempo e alguns vão subindo e descendo do estrado manipulados por dois ou três “caciques”. Quando se descobre que um camarada jornalista americano está presente e pode tomar a palavra, faz-se então um condigno silêncio. Warren Beatty declama algumas generalidades sobre internacionalismo proletário – coisas que o filme sugere andariam arredadas da propaganda do partido bolchevista – e então, espantosamente, iluminam-se os espíritos daqueles mentecaptos, as dúvidas desvanecem-se, as hesitações são vencidas; rompe, formidável, “A Internacional”; desencadeia-se a insurreição vitoriosa.

Uma vez mais, John Reed reduzido a “herói solitário” de fulgores vermelhos, vê o seu papel histórico adulterado, neste caso através de um empolamento fantasioso. Este filme, aliás, desenvolve não apenas o tema do “heroi solitário” como igualmente – não o esqueçamos – um outro ritual obrigatório em Hollywood: a “história de amor”.

Precisamente naquela assembleia de operários, ao terminar a gesticulante intervenção que parece ter desencadeado a tomado do Poder, John Reed, aliás Warren Beatty, com um piscar de olho dá a entender a Louise Bryant, aliás Diane Keaton, que o êxito do discurso fora obra de feliz acaso. E é vê-los, reconciliados, de dia nas “manifs” e à noite  a fornicar, sempre ao som da “Internacional”... A Revolução de Outubro faz-se em três esquinas dos cenários  de Warren Beatty, perante o espanto de dois guarda-freios desprevenidos. E depois ? Entremos no Palácio Smolny, tal como nos é apresentado neste filme.

 

SMOLNY PALACE (MADE IN HOLLYWOOD)

 

Os técnicos de Hollywood têm enorme experiência em encenar salões de palácios europeus quando se trata de realizar as fitas do seu reportório. Depois, o guarda-roupa varia desde o consul romano a despachar os centuriões  (naquelas superproduções de inspiração bíblica), até ao Arquiduque da Áustria a receber Sissi e as suas aias (nos grandes filmes romantico-militares).

É essa técnica de plantar sentinelas, abrir portas, pendurar retratos e fazer entrar e sair personagens que este filme utiliza. No entanto, se fossem honestas as intenções do realizador, bastaria a Warren Beatty socorrer-se de alguns minutos do “Outubro” de Eisenstein, para saber como transmitir a genuina sensação dos palácios russos reduzidos a teatros de momentos decisivos da Revolução.

Aquelas cenas palacianas de “Reds” visam ilustrar as concepções políticas encomendadas ao realizador, segundo as quais o essencial do jovem regime soviético era já a burocracia e a corrupção mais confrangedora. Lá nos aparece o Zinoviev [11], sempre a “encher a mula” e indiferente às realidades do mundo, mas – Oh, inocentes décors – bem enquadrado o retrato de Trotsky, personagem por quem Warren Beatty tem ainda outras formas de manifestar inequívoca simpatia.

 

BAKU: A IDA, A VOLTA E... AQUELE ABRAÇO !

 

Antes de partir para Baku, John Reed ainda aparece em discussão com Emma, uma anarquista que sempre atacou o regime soviético e a quem Warren Beatty dá em “Reds” o papel de simpática “amiga do casal” [12]. Mais uma grosseira falsificação histórica sobretudo quando mulheres que na realidade privaram com John Reed e foram suas íntimas companheiras de luta, simplesmente não são referidas no filme. É o caso de Nadejda Krupskaia, mulher de Lénine, militante bolchevique da primeira hora que, após a Revolução de Outubro prefaciou a primeira edição do mais conhecido livro de John Reed e trabalhou nos departamentos da Instrução Pública onde, aliás, também acompanhou a colaboração de Luise Bryant.

A viagem de combóio de John Reed para Baku poderia considerar-se uma imagem satisfatoriamente conseguida do que foram os “combóios de propaganda” na fase de edificação do Estado Soviético [13].

Porém, o combóio de Warren Beatty tem outro significado. A feliz imagem da ida destina-se a ceder ao mórbido espectáculo da volta. O combóio que Beatty faz regressar, fumegante e moribundo, é a imagem que se quer dar da Revolução: soldados do Exército Vermelho caiem a sangrar nos braços dos entes queridos; os “caciques” do regime, entre bandeiras esfarrapadas, desembarcam altaneiros, tolerando alguns aplausos palermas.

Para trás ficou o Congresso de Baku, representado no filme como outra bagunça do género daquela reunião de operários  que tínhamos visto há bocado [14].

Também na bagunça de Baku, o John Reed de Warren Beatty mereceu a ovação da tarde, mas... agora por equívoco, pois o Zinoviev tinha trocado a “luta de classes” pela “guerra santa”. Uma vez ainda – pelos vistos, a última – o “herói solitário” de Hollywwod defronta sozinho a “burocracia” que corrói o Poder dos Sovietes. Warren Beatty prepara-se para enterrar o seu personagem de acordo com todas as mistelas cozinhadas ao longo da fita.

John Reed reencontra Louise Bryant à chegada do combóio, com aquele abraço que já conhecíamos do cartaz, e a comovedora súplica de “não me deixes mais”... Momentos depois, o espectador assiste à morte de John Reed num superlotado hospital, mais feio que o de S. José.

A forma como John Reed encarou a morte não pode merecer dúvidas a quem respeite a verdade: “Nas últimas horas de vida corrigia ainda os discursos proferidos nos recentes congressos” [15]. Mas, em “Reds”, três horas e meia de mistificação forçoso é que tenham o epílogo apropriado. Warren Beatty retira-se de cena representando o bom rapazinho que, afinal, queria voltar para casa para, talvez, ainda ter muitos meninos.  

_______________________________________________________________________________________ 

 

DUAS NOTAS (MUITO INTERESSANTES) SEM COMENTÁRIOS

I

 

“Reds”: este filme fala marxismo, fala revolução

JL [Jornal de Letras], 30.3.1982, crítica de Salvato Teles de Menezes.

 

“Reds”: o lado que mais toca o espectador: afinal, os revolucionários, os comunistas, são homens como os outros, de carne e osso: amam, sofrem, têm dúvidas e certezas, vivem

(Crítica do mesmo autor, in O Diário, 18.4.1982)

 

II

 

No fundo o que me interessava antes de tudo, era rodar um filme na U.R.S.S. (…) Os soviéticos foram seduzidos pela ideia de um filme sobre John Reed (…). Eles foram muito gentis, mostraram-me os estúdios, toda a gente estava muito bem disposta (…). Eu simpatizava com as pessoas, mas ter-me-ia sido difícil adaptar-me às condicionantes burocráticas da sua indústria”.

(Warren Beatty, entrevista ao Nouvel Observateur, 3.4.1982, pp. 62-66).

________________________________________________________________________________________ 

 

“REDS”

 

John Reed                                                       Warren Beatty

Louise Bryant                                                  Diane Keaton

Eugene O’Neill                                                Jack Nicholson

Louis Fraina                                                    Paul Sorvino

Emma Goldman                                              Maureen Stapleton

 

Produtor / Realizador                                      Warren Beatty

Escrito por                                                       Warren Beatty e Trevor Griffiths

Fotografia                                                        Vittorio Storaro

 

DEPOIMENTOS

Roger Baldwin / Henry Miller / Adela Rogers St. Johns / Dora Russel / Scott Nearing / Tess Davis / Heaton Vorse / Hamilton Fish / Isaac Don Levine / Rebecca West / Oleg Kerensky / Emmanuel Herbert / Arne Swabeck / Adele Nathan / Georges Seldes / Kenneth Chamberlain / Blanche Hays Fagen / Galina von Meck / Art Shields / Andrew Dasburg / Hugo Gellert / Dorothy Frooks / George Jessel / Jacob Bailin / John Ballato / Lucita Williams / Bernadine Szold-Fritz / Jessica Smith / Harry Carlisle / Arthur Mayer

___________________________________________________________________________________

 

[1] Le Nouvel Observateur, 3.4.1982, pp. 62-66; entrevista de Warren Beatty a Catherine David.

[2] Idem.

[3] V. Lénine, Oeuvres – Paris: Editions Sociales / Moscovo: Ed. du Progrés, 1973; tomo 31, pág. 301.

[4] Recorde-se, a propósito, que esta solidariedade se manifestou um pouco por todo o mundo, chegando a verificar-se sublevações nas próprias forças militares enviadas contra o jovem país dos Sovietes, como a que se deu na esquadra francesa.

[5] Basta citarmos Lénine (cf. Oeuvres, cit., t. 22, pp. 132-135), no meeting internacional de Berna, em 8 de Fevereiro de 1916, dizendo a determinado passo: “(…) quero ler-vos o que escreve o camarada Eugene Debs, o chefe extremamente popular dos socialistas americanos, candidato do partido socialista a presidente da República. No jornal americano Appeal to Reason de 11 de Setembro de 1915, ele escreveu: Não sou um soldado do capitalismo, sou um revolucionário proletário; não pertenço ao exército regular da plutocracia, mas sim ao exército irregular do povo. Recuso fazer a guerra pelos interesses da classe capitalista. Estou contra todas as guerras à excepção de uma só pela qual me pronuncio com toda a minha alma: a guerra mundial em nome da revolução social. Nessa guerra eu estou a participar se as classes dominantes tornarem a guerra em geral indispensável. Eis o que escreveu aos operários americanos o seu chefe querido, o Bebel americano, o camarada Eugene Debs “. Este exemplo foi citado numerosas vezes por Lénine em ulteriores ocasiões, nomeadamente na sua “Carta aos operários americanos”, publicada em 22 de Agosto de 1918 e amplamente divulgada nos Estados Unidos a partir de Dezembro do mesmo ano. Nessa altura (cf. Oeuvres, cit., t. 28, pp. 65-66), depois de citar uma vez mais a posição de Debs, referindo-se-lhe como “um dos chefes mais queridos do proletariado americano”, Lénine acrescentava: “Não me admira que Wilson, esse líder dos milionários americanos, esse lacaio dos tubarões capitalistas, tenha lançado Debs na prisão. A burguesia bem pode encarniçar-se contra os verdadeiros internacionalistas, os verdadeiros representantes do proletariado revolucionário. Quanto mais está enraivecida e feroz mais está perto o dia da revolução proletária vitoriosa”.  

[6] Industrial Workers of the World [confederação sindical].

[7] John Howard Lawson, Introdução a John Reed, Dez dias que abalaram o mundo. 2.ª edição. Lisboa: Edições ‘Avante’, 1978; p. 12.

[8] Os grevistas exigiam aumentos de salários, redução do dia de trabalho e o reconhecimento, pelos capitalistas, do direito dos operários constituírem associações gremiais. Em 1919, o movimento grevista abarcou mais de 4 milhões de pessoas. As maiores greves foram as dos estivadores de Nova Iorque, a greve geral da cidade de Seattle, na costa ocidental, e a dos mineiros do carvão. Uma tenacidade especial foi demonstrada pelos 365.000 trabalhadores da indústria do aço.

[9] Muitas vezes sofreram revezes devido à traição de lacaios do capitalismo, como os dirigentes reaccionários da AFL [American Federation of Labour]. Não obstante, as greves proporcionaram aos trabalhadores norte-americanos lições de grande valor: fizeram compreender a necessidade de unificar a classe operária, suprimir a estrutura “por grémios” (profissões) das associações da AFL e reestruturar estas organizações de acordo com o princípio “produtivista” (por grandes empresas e sectores de actividade). Nestas condições, deu-se uma cisão no Partido Socialista, em cujo seio se tinha formado uma forte ala esquerda. Uma parte dessa ala, dirigida por Charles Rutenberg, rompeu com a direcção oportunista do Partido e, em Setembro de 1919, formou, em Chicago, o Partido Comunista da América do Norte. Outra parte da esquerda, encabeçada por John Reed quis continuar a luta no seio do Partido Socialista e substituir os seus órgãos dirigentes. Os oportunistas, porém, expulsaram do Partido todos os “esquerdistas” e, com a ajuda da polícia, afastaram todos os seus delegados da Conferência do Partido Socialista. Então, os membros do grupo, dirigidos por John Reed, convocaram uma conferência própria para Chicago, fundando o Partido Comunista Operário dos Estados Unidos. Não havia divergências fundamentais entre os dois partidos comunistas norte-americanos, tendo os dois ingressado na Internacional Comunista. As duras perseguições que se desencadearam então, obrigaram os comunistas a passar à clandestinidade. Em tais condições, deu-se, em Maio de 1921, a unificação dos dois partidos. Além disso, para estreitar os vínculos com as massas, os comunistas formaram naquele mesmo ano, um partido operário legal. Em 1923, o Partido Comunista saiu da clandestinidade, fundindo-se com o Partido Operário. Assim se formou o Partyido que, a partir de 1929, passou a denominar-se Partido Comunista Americano.

[10] Enquanto que John Reed aceitava sem reservas o princípio de dois partidos americanos serem membros da Internacional Comunista (de acordo com as condições gerais de admissão na I. C. em 21 pontos), as suas ideias quanto à organização sindical não eram inteiramente correctas divergindo da doutrina do movimento comunista internacional, pois defendia a existência de sindicatos “vermelhos”, subestimando o trabalho dos comunistas no seio dos grandes sindicatos dominados por direcções oportunistas, caso da AFL, nos Estados Unidos. Estas confusões também são evidentes quando se trata das qualidades pessoais de John Reed enquanto propagandista da Revolução por um lado, enquanto organizador de Partido, por outro. Em qualquer militante comunista, foi o caso de Reed, raro é que ambas estas capacidades coincidam em alto grau de desenvolvimento. O verdadeiro John Reed era um propagandista nato mas manifestava insuficiências como organizador. Isto tem a ver com origens de classe e com a relação material entre cada homem e a luta de classes que o envolve. Todavia, na perspectiva de “Reds” - e que o digam os grande “críticos” da nossa praça – John Reed era uma saga de talento, um mosaico de paixão, e outras lambuseiras metafísicas que a câmara sensual de Beatty apanhou a mijar vermelho...

[11] Grigori Zinoviev aderiu ao Partido em 1901 e viveu emigrado de 1908 a 1917. Quando da preparação de Revolução de Outubro pronunciou-se contra a insurreição armada e divulgou traiçoeiramente uma decisão secreta do Partido, publicando uma declaração em que, juntamente com Kamenev, discordava das resoluções do Comité Central. Após a Revolução ainda ocupou lugares de responsabilidade, mas pronunciou-se frequentemente contra a política leninista do Partido. Em 1925 foi um dos organizadores da chamada “nova oposição”. Por duas vezes foi excluído do Partido e de novo reintegrado até ser expulso definitivamente.

[12] Emma Goldman, de origem lituana, emigrou em 1885 para os Estados Unidos, aderiu aos núcleos socialistas americanos e, mais tarde a um grupo de emigrantes russos anarquistas. Depois de presa nos Estados Unidos, foi deportada para a Rússia ainda antes da Revolução de Outubro, opôs-se ao Partido Bolchevista, abandonou a URSS em 1920 e viveu depois em Inglaterra, Espanha e Canadá onde publicou livros violentamente anti-comunistas. Na história do “Reds”, as simpatias de Warren Beatty por esta simpática “amiga do casal”, reportam-se às raras “cenas de rua”, na América bem distante das movimentações de massa dos portos e fábricas e que só teriam tido razoável participação quando a Emma tomava a palavra.

[13] Os combóios (e os barcos) de Propaganda tiveram um papel decisivo na consolidação do Poder Soviético nas mais recônditas regiões da URSS. Em 25 de Janeiro de 1920, Lénine redigiu as “Indicações sobre o trabalho dos barcos e combóios de propaganda”, onde apontava nomeadamente para “alargar o domínio económico e prático dos barcos e dos combóios, integrando nas suas secções políticas, agrónomos, técnicos, uma selecção de obras técnicas (livros), filmes apropriados, etc.”, bem como para “estender o trabalho dos comboios e dos barcos em profundidade a partir da via férrea e dos rios reforçando os transportes de apoio (motocicletas, automóveis, bicicletas) colocados a bordo dos comboios e dos barcos, assim como utilizando os meios de transporte locais” (cf. Oeuvres, cit., t. 42, pp. 154-155). 

[14] O Congresso de Baku, Primeiro Congresso dos Povos do Oriente, efectuou-se de 1 a 7 de Setembro de 1920, com a participação de 1891 delegados representando 37 nacionalidades (do Cáucaso, Ásia Central, Afeganistão, Egipto, Índia, Irão, China, Coreia, Síria, Turquia, Japão, etc.). Dois terços dos delegados (1273) eram comunistas. O Congresso de Baku aderiu às decisões  do II Congresso da Internacional Comunista, debateu a situação internacional e as tarefas dos trabalhadores dos países do Oriente, a questão colonial e nacional, a questão agrária e a questão da edificação soviética e da organização. Foram criadas bases importantíssimas  para a formação e desenvolvimento dos partidos comunistas nos países colonizados da Ásia e do Extremo Oriente. Saliente-se, a propósito, que o filme de Warren Beatty não apresenta nem se refere a Staline que era, na época do II Congresso da Internacional Comunista e do Congresso de Baku, Comissário do Povo para as Nacionalidades e um dos principais dirigentes do Partido Bolchevista e do Estado Soviético. 

[15] John Howard Lawson, op. cit., p. 23.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub